Mene, Mene, Tekel, Upharsin (Lendo Applied Ballardianism)

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Eu nunca me importei tanto assim com ficção científica, ou Ballard, salvo por um punhado de pequenos contos. O que obviamente não é a melhor maneira de começar uma resenha de um livro pelo qual você é apaixonado e que é intitulado Applied Ballardianism. Mas nomes e referências, como sempre, podem ser fundamentalmente enganosos, na medida que eles podem ser reapropriados, reinventados, e deformados – de uma tal forma que, no final, podem, na realidade, não ter nenhuma associação com seu ponto de origem que não seja um fino tecido conectivo de impressões, experiências pessoais, e afiliações vagas que são subordinadas ao curso do tempo, e portanto sujeitas à mudança e impermanência. Tal é o caso com a obra de gêneros intercruzados de Simon Sellars, na qual a visão-de-mundo ballardiana (sua [super-]interpretação dela) é aplicada às suas concepções de si mesmo e do mundo no qual vive. 

Temo que minha leitura de Applied Ballardianism possa, na verdade, ser uma traição da obra de Sellars. Mas o próprio fato de que um leitor pode tomar a liberdade de enxergar uma obra nos termos de sua própria esfera pessoal, pode re-conhecer o que já foi conhecido pelo autor, é uma indicação de que estamos no reino das maiores obras de literatura, onde você é encantado, fascinado e compelido a reinventar o texto em seu espaço pessoal interno, vê-lo como um mapa para como você deveria repetir essa jornada em seus próprios termos, independentemente dos padrões e restrições rigorosos postos pelo gênero, obra, ou seu(sua) escritor(a). De fato, não é exatamente assim que Simon Sellars aborda a obra de Ballard?

Na verdade, o encontro de Sellars com Ballard não descamba [bottoms up] na realidade ballardiana. Se o universo ballardiano é como realidade de nosso mundo moderno descamba, então com certeza podemos imaginar construir novos mundos contrafactuais em cima dele, para torná-lo irreconhecível ou para re-conhecê-lo. Afinal, o que nós chamamos de fundação é meramente uma combinação de sujeira e água que serve de base para o mais deslumbrante edifício que pode ser erigido. Em outras palavras, mesmo que tomemos o universo ballardiano como o substrato último de nossa realidade contemporânea, nada – que não seja o atrofiamento de nossas próprias imaginações – nos impede de seguir construindo novos mundos em cima e a partir das ruínas de atopias ballardianas, usando métodos similares àqueles com os quais Ballard construiu seu próprio mundo a partir do entulho do século XX. É assim que a obra de Sellars de uma só vez permanece fiel a Ballard e se torna desleal a ela. E se Sellars reinventou Ballard de acordo com sua jornada pessoal e espaço interno, então porque não deveríamos fazer a mesma coisa com Applied Ballardianism?

 

Ano 0.01 De acordo com o Calendário Ballardiano

O horizonte cheira a cores lisérgicas. Em inspeção mais aproximada, sua textura é uma combinação de tinta metálica e couro polido, sugestivo dos grande interior de um Corvette customizado acelerando com cruise control, a caminho de um ponto de esvanecimento onde todas as nossas psicoses finalmente convergem. O Sol já deixou de existir, estrelas se foram para sempre. Mas nós há muito paramos de romantizar o fim de nosso mundo. Nosso únicos interesse agora é o destino dos universos contrafactuais. Essa imagem do mundo é mais próxima a uma iteração copiada-e-colada de azulejos de baixa resolução de Civilization, por Sid Meier, do que ao retrato antropológico erudito que nossos sucessores podem aleatoriamente se deparar no museu de história natural do humano no ano 800 DB. Slogans situacionistas, fábulas pós-modernas, e linhas uma vez já edgy de Cool Memories por Baudrillard rabiscadas nas paredes de uma comunidade fechada na periferia de uma cidade universitária suburbana, agora parecem como se durante todo o tempo elas não fossem nada além de grandes marcas para produtos vindouros: Unidade de disposição da Realidade ver. 2.0, cachorro-quente sci-fi desconstruído, e gummi bears após-a-orgia. Nesse universo, eu com certeza pediria todos os três produtos online. Se eles não me satisfizerem, falarei com Emmanuella, a bot. Sempre a pessoa mais agradável. Após alguns cumprimentos e flertes simulados, decidimos se eu deveria retornar os produtos para substituição ou pedir reembolso. Claro que concordo com a primeira opção, e sigo a sonhar com Emmanuella a noite inteira: Somos casados, nossos filhos biots brincando em um quintal infinito de pixels. Vamos em nossa lua-de-mel, para o Oriente, talvez Dubai, onde ela me pergunta: “Existe um bom romance de carros nessa cidade?” Eu respondo, “Isso depende, eles ainda usam carros?”. Ela parece um pouco desapontada, seu algoritmo foi escrito para reagir exatamente dessa maneira carinhosa e conveniente. Ela continua, “Eu sempre fantasiei morrer em um taxi”. É aqui que eu solto a frase que tenho recitado por meses, “se você acha um acidente de carro sexy, você deveria fazer cosplay do acidente de avião de Aaliyah”. Ela diz, “Eu tenho medo de altura”. Eu digo, “Se me disser que já fez isso com um outro amante, então talvez devêssemos tentar novamente!”.

Isso, no entanto, não é como Applied Ballardianism começa ou termina. Esse cenário e cenários similares já são pressupostos como fatos do mundo atual, aqui e agora. A tarefa difícil neste ponto é fazer um livro vendável a partir deles, um livro onde somente o prefácio precisa se ocupar de tais óbvios fatos. 

Escritores naturalistas literários há muito estão cientes de que é fácil o suficiente pressupor a plausibilidade de um tempo profundo darwiniano, ver o Sol e as vibrantes pastagens descritas com romântica elegância em obras iniciais de literatura como meras denotações desenfatizadas e desencantadas.  A tarefa que se encontra à frente deles é fazer uma estória popular a partir de tais elementos, criar um mundo diferente sobre as ruínas do mundo que foi arrasado por pessoas como Darwin and Kepler. Tome por exemplo La Bête humaine de Zola, reputadamente o primeiro romance de serial killer escrito na veia moderna. A estória de Jacques começa com ideias de predisposições hereditárias e um mundo atual que não tem nada a oferecer além de delírio sexual, psicose em massa, e guerras em grande escala, tudo facilitado pela tecnologia das locomotivas e das redes de ferrovias. 

Neste cenário, até mesmo as configurações mentais dos protagonistas são baseadas no motor térmico de Carnot e nas caixas pretas comteanas. A forma com que pensam e se comportam não mais carrega qualquer similaridade com as noções anteriores de personagem humano, que deixou de existir há muito. Personagens são sistemas entrópicos predispostos a perturbações infinitamente pequenas. Mesmo a forma com a qual eles são descritos em seus momentos ordinários tem mais em comum com a estética feia [ugly aesthetics] (comparável com a matemática feia [ugly mathematics] – a matemática do caos – usada para descrever o motor de Carnot) do que com os complexos, mas ainda assim humanamente definidos, personagens de Shakespeare.

Se fosse para adotarmos um termo provisório para o estilo literário do livro de Sellars, seria apto chamá-lo Naturalismo Ballardiano. Pois, numa veia similar aos naturalistas literários, Sellars aplica na ficção científica, cyberpunk, thrillers de espiões “guias turísticos” de aeroporto, e na própria obra de Ballard, a mesma operação que Zola e talvez até mesmo Hardy (e.g., A Pair of Blue Eyes) e Crane (The Open Boat) aplicaram nas românticas e imaginativistas obras anteriores de literatura. 

Estamos agora em um jogo multi-nível colossal onde realidade e virtualidade são tratadas como românticas e excessivamente nostálgicas caracterizações de um mundo que está verdadeiramente acabado. Psicoses em volta do Eu e do outro, ilhas pacíficas isoladas, tudo o que conhecemos, e até fenômenos inexplicados tais como OVNIs são conectados, analisados e organizados [curated] pelos dados gerados exaustivamente pela nossa participação em tal jogo: Quanto mais você responde ao jogo, mais você gera afeto em excesso [surplus affect]. E, nesse jogo, quando mais afeto você gera, mais seu excesso de comportamento se torna um módulo do jogo, e mais suscetível ele se torna a ser o resumo de um novo nível do jogo. Esse novo nível pode ser um cenário de pesadelos ou uma bagunça cognitiva – a visão do inferno em Doom 3. Ainda assim, qualquer que seja sua natureza, não importando como o vemos politicamente ou como o abordamos ao nível de suas próprias injunções micro-éticas, ele mesmo assim abre um terreno explorável dentro do qual novas experimentações pessoais podem ser plugadas, e novos jogadores adicionados. Esse jogo multi-nível está, como um todo,  além do juízo dos deuses, e definitivamente do dos humanos. A única coisa que podemos julgar é o quanto ele nos permite fazer algo excitante – no sentido mais amplo possível do termo – com nossas psicoses.

Eu percebo que essa visão videogame do mundo não é de forma alguma politicamente avaliável [accountable], ou mesmo racional em qualquer sentido minimal ou maximal. Mas e daí? Por que não podemos ter tudo isso: os mundos de deveres políticos, a filosófica vontade de razão, e máquinas desejantes – sem qualquer presunção a respeito de coisas como tarefa, responsabilidade e consciência social – sintonizados com nossa psicoses, todas lado a lado? Afinal, nós vivemos em planetas contrafactuais paralelos, ou escalas da realidade. Somente um filósofo estúpido ou um teórico político dissimulado procurariam sobre-estender a lógica de um mundo a todos os outros. 

Escritores de ficção tais como Sellars, por outro lado, preferem manter a lógica desses níveis ou universos separada, mostrando que o jogo – isto é, a realidade – se corrompe quando você tenta esticar demais ou reduzir ideias e práticas a uma pretensa visão fundamental do mundo e de como se deveria viver nele. É aqui que penso que a ficção tem muito mais poder do que a filosofia para nos mostrar que nem tudo deveria ser, desde o começo, teorizado em um sentido estrito. O poder filosófico da ficção é algo apocalíptico: ele nos revela que estamos amarrados a múltiplos universos que podem, na verdade, estar em conflito. Sem essa revelação, todas as teorias e receitas políticas não são nada além de exercícios preconceituosos de ingenuidade e provincianismo, pluralismo ou monismo. Sim, no mundo da filosofia nós devemos, em última instância, descobrir [figure out] como esses mundos separados ou em competição podem se fazer ter sentido, serem reconciliados, conectados e talvez mesmo aniquilados. Mas o mundo filosófico também é distinto do da ficção. Para que a filosofia ou teoria sequer comece sua atividade, nesse sentido, ela deve aceitar a soberania da ficção como um diferente mundo de realidade – um que insinua alguma coisa da pura abundância de variáveis (mundos ou versões de mundo) da da qual se precisa dar conta – não somente descrita, mas também prevista e exemplificada. 

É nesse sentido que, para aqueles que tentam de forma tão desesperada encolher a realidade às suas visões políticas achatadas, a orientação de Applied Ballardianism pode parecer duramente apolítica. No entanto, é necessário ver esse livro como jogando precisamente o jogo multi-nível com diferentes resoluções políticas em diferentes níveis. Onde a esquerda tradicional estende demais, em uma maneira “de cima para baixo”, a noção de dever sociopolítico a humanos individuais às custas de suas infinitesimais mas ainda assim potentes complexidades (desejos, neuroses, traumas, imprevisibilidade de pensamentos e ações), o neoliberalismo, à moda “de baixo para cima”, estica demais a noção de preferências individuais nos mitos do capitalismo da teoria dos jogos e teoria da escolha racional macroeconômica. Sellars, entretanto, seja inconscientemente ou deliberadamente, nem mesmo tenta desperdiçar palavras sobre essas proezas frívolas. Dependendo da resolução na qual o jogo é jogado, o livro está repleto de implícitas visões sociopolíticas fundamentalmente diferentes de nosso mundo. Não há contradição aqui, apenas mundos concorrentes atuais que – e talvez isso seja simplesmente um mal hábito – somos acostumados a chamar o mundo. É o conflito entre versões de mundo e suas respectivas visões que é, na verdade, o próprio elemento constitutivo do que nomeamos “realidade”. Aqueles que têm problema em entender a realidade como uma questão de múltiplos mundos em conflito deveriam perceber o quão rápido seus ideais deterioram e que rapidamente chegarão ao Game Over. 

Se fôssemos construir o meme do compasso político de Applied Ballardianism, não seria um compasso sul-norte, leste-oeste, ativo-passivo, inclinado à esquerda ou à direita. Seria uma nova tabela cartográfica sobre como a realidade política contemporânea na verdade funciona: entrelaçando eixos diagonais onde o aceleracionismo de esquerda, de direita e incondicional, enquanto encapsulamentos de forças maiores do novo mundo – i.e., um mundo que não é meramente representado mas também previsto de uma nova maneira – se cruzam e cortam através de uma imagem plana da realidade. 

No cenário do jogo multi-nível Sellarsiano-Ballardiano, a noção cyberpunk de “jacking in” seria ridícula, uma vez que já não há mais nada além do jogo. Neste ponto, o jogo é tão prevalente que fede a uma natureza oni-pervasiva. É aqui que o naturalismo Ballardiano entra na jogada, como uma atitude que toma o velho mundo Ballardiano-Gibsoniano a sério, mas se recusa a ser sua mera transcrição. Se Sellars pede alguma coisa, é simplesmente para que levemos a sério a realidade dos cyber-jinns no céu de Dubai, playboys britânicos que se tornaram recrutas ISIL, cirurgiões plásticos trapaceiros retidos por grandes traficantes, uma boa curadoria de canais de teorias da conspiração ao ar 24/7, e ilhas feitas de entulhos de carros de luxo com menos de dez anos… e então que superemos tais realidades mundanas. A partir desse ponto, a literatura como conhecemos adquire seus materiais concretos não de Neuromancer, Notas do Subsolo de Dostoiévski, ou pior, de divagações proustianas, mas do Twitter e do Facebook, onde as coisas são medidas por novas intuições de espaço e tempo. 

Se o canonizado termo “ballardiano” é tomado como uma designação de como nossa realidade é ou descamba, se é um termo que é implicitamente acordado, então por que alguém quereria escrever um romance “ballardiano”? Somente um tolo realista-ingênuo quer fazer literatura que se conforma a como as coisas são. Pelo contrário, quando é consequencial, a literatura não mais corresponde ao estado de coisas dado. Ela parte de um mundo que nos é entregue, sem nunca romper completamente a ligação com ele. Como tal, as grandes obras de literatura tais como Applied Ballardianism são aquelas que exigem a maior vingança da realidade na qual todos nós, implicitamente ou explicitamente, nos conformamos. Os mundos das maiores obras de literatura são mundos cujas consequências diferem radicalmente de suas premissas.

Uma coisa é consentir com a forma que as coisas são; outro jogo completamente diferente é apostar em quais coisas podem ficar infinitamente piores ou melhores, ou então levar a um novo e pós-ballardiano território. Portanto, para ler o livro de Sellars, devemos engajar no duro trabalho de trocar todos os calendários pela modernidade ballardiana, para o ano quando a realidade como a conhecemos se tornou um campo de pesquisa forense, um tema para um parque de diversões antropológico, uma vez que só podemos nos imaginar brincando nesse parque. O ano em que a realidade parou de fazer sentido para aqueles que não podiam acompanhá-la ou para aqueles que nela estavam muito imersos. A obra de Sellars começa exatamente a partir desse ano, onde os únicos recursos imaginativos que temos à nossa disposição são nossos recursos perceptuais e cognitivos em débito com nossas psicoses, de uma forma ou de outra permeados pela noção de uma e somente uma realidade ou jogo que é bastante ballardiana em natureza. 

Autodidata Ballardiano

Não é uma revelação crítica majoritária dizer que Applied Ballardianism é, em um sentido concreto, um filho do gênero de ilha deserta, onde memórias, diários de viagem, estórias coming-of-age e ruminações teóricas são postos em movimento pela premissa de viverem em uma ilha – isto é, um pedacinho de poeira num oceano de milhões de ilhas possíveis. A obra de Sellars, nesse sentido, é lida como Risālat Fādhil ibn Nātiq (Theologus Autodidactus) de Ibn al-Nafis rebobinado: a estória começa com o dia em que fomos ressuscitados, após a catástrofe ficcional-científica que encerrou nossas ilusões ao expor o mundo como ele é. E então voltamos ao ponto em que decidimos abandonar nossa ilha, depois de muitos náufragos e fantasmagóricos naufrágios de lugares remotos se juntarem a nós em seus litorais isolados. Éramos uma comunidade de pessoas encalhadas, alguns nostálgicos pela origem, alguns conectados por finos fios à convicções neuróticas compartilhadas. Fizemos uma jornada para todos esses lugares que foram uma vez chamados de lar. Mas aí, desiludidos da própria ideia de lar, retornamos à ilha onde o mundo, mesmo que minúsculo, era novo, onde nós começamos a aprender o significado do que quer dizer viver em uma ilha deserta: um domínio no qual ilhas são meramente jogos contrafactuais de criança em um oceano ilimitado. 

Applied Ballardianism não esconde o fato de que se apoia na premissa dos gêneros de viagens e ilhas. Pelo contrário, ele faz com que a verdade esquecida de vivermos na ilha da civilização seja novamente mais alta e mais clara: Tudo o que podemos fazer é sonhar com algum lar, que sempre acaba por ser uma pocilga terrestre esfarrapada, um desapontamento completo, coletando fósseis (internet, carros, mísseis, Atlantises, e faces humanas com botox) ao mergulhar no oceano, nos entretendo ao especular sobre o que são esses fósseis, o quão velhos são, e como nossos futuros filhos brincarão com nossos restos preservados. 

Ao viver em uma ilha, já se está postulando a possibilidade de ilhas infinitas sem ao menos chamar alguma delas de “lar”. A ilha poderia ser meramente uma caverna na qual todos nós nascemos. Mas poderia também ser um bunker, um hospital desolado, portas fechadas conforme as luzes piscantes das ruas do mundo exterior – uma vez brilhantes com a promessa de segurança e aventuras cercadas de terra sem litoral – se vão uma a uma. Estar novamente imerso em uma caverna equivale a um esquema para novos planos de fuga, para se desacomodar do que se encontra fora da caverna e, no processo, navegar deste para aquele universo contrafactual. É exatamente nesse sentido que Applied Ballardianism não é somente uma ficção pulp, mas também uma receita para como devemos abordar a confecção literária como uma viagem cujo ponto de origem é um mundo que costumava ser visto como fantástico, e mesmo científico-ficcional, mas que, na atualidade, passa a ser o corrente estado de coisas. 

O rabiscado arco do livro de Sellars pode parecer, para muitos teóricos em débito com décadas de puros clichês e preguiçosos devaneios intelectuais, como uma narrativa escapista, ou, mais desfavoravelmente, uma fábula construída sobre uma visão pós-moderna do mundo. A figura da ilha pode parecer convergir nas mais ingênuas compreensões do mundo. Mas, como sempre, deveríamos desmascarar a inanidade de tais interpretações, desafiar as pessoas para as quais tudo é um estereótipo, aqueles que, em virtude de sua inércia mental, entendem a ilha como uma prisão ao invés de um ponto central para viajar para diferentes mundos. Não posso falar por Sellars, mas para mim, enquanto um leitor para o qual as ideias não são meramente partes de uma exibição de arte mas variáveis sobre as quais minha vida e s

anidade dependem, Sellars é essencialmente um exemplar de viajante ao invés de turista. Sua obsessão, semelhante à de Nash, por ver todas as características do presente como um signo ballardiano ou uma escrita criptografada na parede, instiga uma jornada pessoal, uma marcha pelo globo na qual o autodidata ballardiano se torna uma outra coisa, um vidente de profecias reveladoras de mundos possíveis que pressionam e distendem nosso sereno horizonte. 

Mas Sellars não é nenhum Nostradamus. Ele somente elabora o desenlace lógico do que significa viver nessa realidade. Diferente de Nostradamus, e mais como os filósofos antigos, sua jornada presciente é profundamente transformativa. O que separa, em última instância, um turista ou voyeur de mundo de um verdadeiro aventureiro, são suas diferentes proporções de transformação pessoal para passeios [sightseeing]. Ao curso de Applied Ballardianism testemunhamos uma completa alteração: O Eu que sai deste mundo – não importando o quão alheio pareça aos olhos dos espectadores – não é o mesmo Eu em que acaba ao partir dele. Todos podemos iniciar das mesmas e comuns psicoses derivadas dos mecanismos de uma realidade que nos subsumiu, ainda que essa comunalidade não signifique nada para Sellars. Ela é só uma condição inicial para um sistema dinâmico cujas trajetórias ainda tomarão forma. Assim como o mundo e suas verdades canônicas se mostram como fabricadas, também é o autor quem fabrica o mundo.

Fatos e Ficções são combinados, e não só hoje mas desde que o jogo começou. São todos elementos fabricados, mas não por uma fabricação aleatória qualquer. Ao invés disso, eles são fabricações sistemáticas nas quais os conceitos de verdade, consistência e coerência não são nunca suficientes para separar fato de ficção, aquilo que é encontrado daquilo que é feito. Tal distinção requer muito mais elementos, que compõem a crítica de construção-de-mundo, na qual ficções não são prima facie opostas aos fatos. Ambos são tijolos de realidade. O único jeito de diferenciá-los é aceitando a tese de que existimos simultaneamente em muitos mundos – não meramente possíveis – atuais, e que o que pode ser ficção em um mundo é fato em outro, e vice versa. A obra de Sellars não é nada além de uma ode a essa simples forma de abordar a realidade, uma que há muito abandonamos e da qual mundos inteiramente novos podem ser feitos. 

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