Alguns esclarecimentos sobre o Inumano

Desde que postei o resumo de “O Labor do Inumano” ontem, tive várias conversas com amigos. Pensei que seria melhor pelo menos prover poucas e breves observações de correção. Penso que fui claro no começo do post anterior, que eu não mais endosso o escopo completo do ensaio original assim como sua recapitulação. Existem muitos problemas nesse ensaio que precisam ser resolvidos, mesmo que eu ainda esteja comprometido com suas teses centrais. Permita-me apontar alguns dos problemas que são mais sérios e significantes. 

Em LdIH, existe demasiada ênfase nas concepções brandomianas de normatividade e razão como enraizadas em tipos [kinds] especiais de práticas sociais. O problema é que a ideia de socialidade ou de práticas sociais para Brandom, por vezes, confunde socialidade substantiva e socialidade como uma condição formal. As ramificações dessa confusão não são nem um pouco prazerosas filosoficamente ou politicamente. Toda a noção de socialidade deve ser tratada com o máximo de cuidado, do contrário o declive ao humanismo regular é inevitável. Brandom em muitas ocasiões elide socialidade substantiva e socialidade como uma condição formal de raciocínio. A primeira consequência de tal elisão aparece no reino da política e da consciência política. Eu acredito fortemente que a razão pela qual Brandom é um quietista liberal seja devida a essa confusão. A razão é erroneamente entendida como uma ferramenta suficiente para a mudança política, ao invés de meramente necessária. Apenas porque somos animais que recebem e fornecem razões, isso não significa que compreendemos o que é razão ou que nossa razão é uma ferramenta suficiente para mudança política. Não deveria ser surpreendente que o racionalismo de Brandom coincida com a novela habermasiana de uma sociedade racional na qual tudo o que nós precisamos é um discurso ou comunicação mais racional. Dito isso, acredito que Brandom possui uma ideia bem mais sofisticada de razão e raciocínio do que Habermas, talvez até sem o conhecimento dele próprio. 

Tanto Peter Wolfendale quanto eu concordamos que a socialidade da razão deve ser investigada como uma condição formal, e como tal seria mais acurado modelá-la em dinâmicas e processos computacionais ou em sistemas de processamento de informação verdadeiramente concorrentes (o paradigma interacionista da computação, ciências da complexidade, hierarquia de tipos [types] da computação, etc.) Wolfendale já escreveu sobre esse ponto aqui. Pela tese de Wolfendale, podemos ir mais longe ao ponto de vislumbrar um agente artificial que possui um modelo internalizado de socialidade como uma condição formal, ou, mais precisamente, computacional. 

Um outro ponto de objeção é que mesmo assim – uma vez que modelamos o humano em termos de hierarquias de tipos [kinds] da computação – podemos nos encontrar na estaca zero, que é o humanismo conservador. Um tal modelo computacional do humano deve ser acoplado com o que eu chamo em Intelligence and Spirit, “a profunda [thoroughgoing] crítica das estruturas transcendentais” (e.g., como nossa estrutura da memória, linguagem natural e representações de tempo e espaço, enquanto condições da possibilidade de percepção-cognição-ação, limitam o processo de desprendimento, e nos fazem retornar a vieses humanos). Penso, nesse ponto, que tanto David Roden quanto eu podemos ser considerados como apoiadores e críticos complementares um do outro. Roden oferece os prospectos de um pós-humano desassujeitado [disenthralled] e enfim liberto do substrato homo sapiente, e eu providencio o retrato de uma lista de restrições necessárias do que é preciso para chegar a tais prospectos. Mesmo que nesse livro, prestes a ser publicado, eu ofereça uma crítica da descrição extremamente sofisticada feita por Roden do pós-humano usando suas próprias abordagens e não uma crítica racionalista – por meio da análise bayesiana dos vieses humanos, complexidade computacional e teorias do sistema dinâmico – eu penso que, numa estranha virada, minha tese sobre o inumano converge com sua ideia de pós-humano, mas com algumas ressalvas. Como Wolfendale sugeriu, o inumanismo racionalista – pensado adequadamente – é uma forma genuína de pós-humanismo, mas também uma crítica e resposta explícita a isso.

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