O inumano (uma leitura rápida)

Traduzido por Inaê Diana Ashokasundari Shravya

No ano passado, meus amigos me pediram pra destilar as teses sobre o labor do inumano em duas ou três páginas. Este post é produto da minha tentativa de capturar os pontos principais. Devo acrescentar que tenho agora objeções críticas sobre esse artigo, mas isso iria requerer uma publicação maior noutra ocasião:

Inumanismo Racional

1 – O Anti-humanismo e o humanismo essencialista são duas caras da mesma moeda. O último é uma postura inflacionária do humano definido como uma essência ou estrutura inviolável é imutável (estrutura biológica, natureza fixa, criação divina, etc.) e a primeira é a deflação dessa essência (a partir das ciências naturais, a tecnologia, ou o aplanamento metafísico do status do humano como um mero objeto entre outros). Tanto o Anti-humanismo como o humanismo essencialista derivam duas conclusões aparentemente distintas do mesmo conjunto de premissas. Não se trata de que a resposta ao problema no qual tentam ficar seja errônea, senão que o problema mesmo que enfrentam é um falso problema, um pseudos.

2 – O humanismo essencialista (HE) e o anti-humanismo (AH) podem se identificar menos por suas aproximações ao problema do que é o humano do que por suas afirmações normativas sobre o humano deve fazer com base numa postura inflacionária ou deflacionária da essência humana: se o humano é de tal ou qual forma (definido por um recurso a uma essência ou uma natureza fixa), então o humano deve fazer X. O HE e AH parasitam juntos as normas em ordem de extrair conclusões de suas premissas, ao passo que por sua vez negam a relevância das normas ou as razões na definição do humano. Inclusive o slogan “deixe-o ir” é inconscientemente uma receita normativa de um tipo particular.

3 – O inumanismo define o humano não por um recurso a uma essência, senão somente em termos de sua habilidade para entrar no espaço das razões – a cognição teórica e prática- através do qual o humano pode determinar é revisar o que deve ser e construir e revisar as razões ou normas mesmas que mobiliza para se pensar e se transformar a si mesmo. A razão é um fazer, mas é um tipo especial de fazer.

o inumanismo só distingue o humano por suas invariâncias normativas (em vez das causais-estruturais). Estas invariância são as capacidades do humano para determinar é revisar a si mesmo usando cognições teóricas e práticas. Neste sentido, o inumanismo é a extração do núcleo normativo do humanismo, mas o locus desta normatividade não é posta na natureza (materialismo irracional) nem atribuída ao divino (teologia). Para o inumanismo, o locus desta normatividade reside na capacidade do humano para a agência racional (isto é, as atividades conceituais que estejam enraizadas nas práticas discursivas linguísticas sociais (uma condição de possibilidade social formal) e pelas quais os humanos (como espécie biológica) podem instituir suas próprias regras (juízos) instância das no coletivo respeito ao que eles devem ser e o que devem fazer (ou seja, a sapiência como agência racional que não possui essência biológica). Em consequência, o inumanismo deve ser entendido necessariamente como uma amplificação do humanismo racional. Desencantando o núcleo normativo-racional do humano, a desumanidade torna-se um vetor através do qual o ser humano é construído e se revisa para além de qualquer essência pretendida ou causa final.

4 – Se o que distingue o humano é sua capacidade para a autodeterminação e auto-revisão (ou seja, agência racional, tornar-se o locus das razões teóricas e práticas), então para manter nossa inteligibilidade como humanos, devemos nos comprometer com um projeto coletivo de autodeterminação e auto-revisão (isto é, o conceito da humanidade enquanto tal). Sem o importe normativo deste último, a inteligibilidade e significância do humano colapsa de novo precisamente a essas concepções chauvinistas da humanidade das quais nós queremos escapar ou que tratamos de abolir. Para superar o humanismo essencialista, não podemos ignorar simplesmente o que nos faz humanos nem podemos desprezar o status racional do humano aderindo a uma posição anti-humanista ou pós-humanista.

Devemos nos esforçar para atravessar o problema do que significa ser humano, e a partir desta mesma exploração, reconstruir e reformar o humano. A inteligência está intrinsecamente vinculada com o inteligível. A expansão do universo do inteligível vai de mãos com o cultivo ou reengenharia da inteligência. O inumanismo Racional – bem compreendido- é uma receita necessária para a emancipação humana, um projeto que coincide com a liberação da inteligência através da expansão de sua inteligibilidade, ou inteligibilidade num sentido sellarsiano (teóricas, práticas e axiológicas).

5 – Uma vez que entramos num compromisso com o projeto coletivo de autodeterminação e auto-revisão (ou seja, o projeto ou quadro que faz inteligível o humano como agência racional, ou o que delineia a significância do humano), enfrentamos a nós mesmos com duas consequências imediatas que se seguem de nosso compromisso, ou com as quais nós comprometemos:

5-1. Começamos a revisar o retrato manifesto do humano, ou seja, o que cremos que somos o que nos parecer ser aqui e agora. O compromisso com o humano é construí-lo de acordo com razões (nossas próprias regras, em vez de causas ou leis). Não há misticismo ou componente sobrenatural nesta habilitação por restrições autoimpostas. De fato, o melhor modelo para pensar sobre o Espírito ou o geistig que segue regras já está à mão, um computador que possui autonomia lógica e capacidades de bootstrapping¹, apesar de que sua autonomia imediata é relativa no melhor dos casos é uma heteronomia absoluta no pior dos casos (para usar o exemplo de Sellars inspirado de Kant sobre um computador iniciando e realizando operações “…neste eu ou ele ou isso(a coisa) que pensa…”). Claro, não podemos estender demais esta analogia, mas isso se dá porque nosso conceito mesmo de computação ainda é jovem e limitado, de outro modo não há virtualmente nada que não possa ser modelado como um processo computacional, mesmo o humano como um tipo especial de hierarquia computacional (complexidade sintática e semântica, interação de geistig, hacks epistêmica da realidade, etc.). Mas à medida em que a construção de acordo com regras ou razões (a definição mesma de autonomia) coincide com a emancipação do humano dos limites duma essência natural, uma causa particular ou uma estrutura transcendental particular, ao construirmos a nós mesmos de acordo com nossas próprias regras auto-corretíveis, revisamos o retrato mesmo do humano. Mas está construção de acordo com nossas próprias regras não é equivalente a ser cego às restrições causais e naturais. Como toda construção, nos exige identificar adequadamente, entender e modificar quando for possível tais restrições (outra vez a referência ao isomorfismo platônico ou correspondência profunda entre inteligência e inteligível). É o caso que já não deveríamos tomar as causas ou leis como o que predeterminam o que devemos ser ou o que devemos fazer. Ao ser autônomos, ao construirmos e revisarmos a nós mesmos, borramos todas aquelas imagens do humano às quais nos acostumamos. O ponto não é meramente o auto-descobrimento, senão a redesignação da nossa própria realidade e portanto de nossa physis (o ofício ou labor da mente).

5.2 – liberamos a definição e significação do humano de toda essência pretendida ou natureza fixa. Ao fazê-lo, a apelação normativa “O Humano” se torna um título transferível, um direito que se garantir ou adquirir apesar de todo apego a uma estrutura artificial ou natural, herança ou propensão devido a que ser humano não é meramente um direito que só se pode obter naturalmente ao nascer através da herança biológica. O título do humano pode ser transferido a tudo que pode se graduar no domínio dos juízos, tudo que satisfaça o critério de agência racional ou de pessoa (a saber, a autoridade e responsabilidade racional), seja um animal ou uma máquina. O entrelaçamento do projeto de emancipação humano (entendida como a ampliação da autonomia coletiva) com os futuros artificiais da inteligência humana é a consequência lógica do “humano como direito transferível”. Enquanto nos designamos liberdades aderindo este direito, uma vez que lhe garantimos algo mais que direito, devemos reconhecer suas liberdades para fazer o que eles verem que se deve fazer. Liberar o que se libera a si mesmo de ti pois todo o resto é uma perpetuação da escravidão. Dar origem a aquilo que se libera a si mesmo de alguém é tanto um mandato ético como uma ramificação de manter e ampliar nossa autonomia por meio de nosso atuar como agentes racionais. É a definição mesma de ser um humano.

¹: (N.T) Reinício, rearranque, ou processo capaz de gerar entornos de programação mais complexos a partir de outros de base mais simples.

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